quinta-feira, 12 de novembro de 2009
"This book explores how modernity gives rise to temporal disorders when time cannot be assimilated and integrated into the realm of lived experience. It turns to Baudelaire and Flaubert in order to derive insights into the many temporal disorders (such as trauma, addiction, and fetishism) that pervade contemporary culture. " (... qualquer semelhança com Ferrara, Fassbinder e Argento não terá sido mera coincidência).
A belezura Dead time: temporal disorders in the wake of Modernity ( Baudelaire and Flaubert).
aqui:
http://www.mediafire.com/?l4j1rl4okm3
Édipo 1

O termo pneuma, presente no Evangelho segundo São João, foi uma palavra que deu muita dor de cabeça a São Jerônimo, tradutor do Novo testamento em grego para a Vulgata latina. Significa tanto sopro ( respiração, ritmo) quanto espírito. Evidentemente, o espírito de que se trata aqui é o divino, a Graça, que a tudo toca e transfigura. No cinema dos Straub, também sopra um pneuma, que igualmente vivifica corpos humanos e outros corpos, paisagens humanas e outras paisagens: é a palavra, mater intercessora entre os mortais e o divino.
Em Das nuvens à resistência, há um travelling traseiro ( é assim que se diz? não!) que sempre me exauriu: Édipo e Tirésias conversam numa carroça, ou antes: vaticinam a palavra ao silêncio, onde esta encontra sua fonte e razão de ser. O tempo do corte, que nunca é funcional em Huillet, que nunca está onde esperáramos que estivesse, aqui atinge uma sideração litúrgica, tamanha é a concentração e reserva perante o numinoso que exige de nós. Esperamos, indefinidamente. Talvez demais, entredentes eu murmurava. Mas hoje eu sei- ou imagino saber- o significado daquele tempo infinito incrustado- do plano- na finitude taciturna dos conselhos de Tirésias, antes de tudo um sábio, um homem que vê melhor e mais longe que outros homens, alguém que vê para além da carne. Ora, eis o oposto de Édipo, tão cioso de sua força e de sua implacabilidade, de ser o centro de seu Destino quando, segundo o velho refrão da ironia trágica, é o Destino que tem Édipo nas mãos. E qual o Destino que o Destino reservou a Édipo, o seu óbulo trágico? O Destino de Édipo é tornar-se um Outro; de Rei a Profeta. O Destino de Édipo é tornar-se Tirésias.
O incalculável tempo que se leva para chegarmos a ser quem realmente deveremos nos tornar, o tempo que toda tragédia reservou ao hieratismo e aos ditirambos do coro, o tempo de trocar a máscara e de, assim, retomar a velha ciranda cíclica, Deuses e Homens, Semideuses e Mortais, todos sob um mesmo e único círculo, trocando apenas de posição e de papel. É a este tempo- o tempo trágico- que Danièle Huillet nos quer introduzir, ao tensionar a corda melódica do plano até o limite em que esta estaca diante do insondável, do silêncio de que toda música e toda imagem estão grávidas: fiquemos por enquanto com o rugido iracundo do vento nas árvores, com os arquejos de Tirésias- que um dia foi mulher, que também trocou de máscara, como Édipo trocará, velho novo giro-, com a textura salitrosa da foto de Giovanni Canfarelli, com o dom da luz sobre os corpos dos homens, voltados contra nós e para o tempo em que serão Outros.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Zwartjes 1

terça-feira, 3 de novembro de 2009
The brood

segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Joe

Há acontecimengos intersticiais; brechas, ou rasuras no corpo fluido do tempo, cuja função reside em assinalar sua intermitência, os secretos labirintos que o tempo abriga: uma masturbação entre namorados, a escuta do vento, o trabalho das formigas sobre a trincheira dos corpos. Há acontecimentos que redimensionam a nossa percepção do tempo, a blocam ou saturam, em todo caso deslocam a imagem em relação à sua contraparte imaginária, acontecimentos sonoros: uma paisagem idílica sampleda por uma fm; o címbalo melódico do riacho, contraponto do mutismo do namorado; o véu onomatopéico de grilos e formigas, que se estende sobre a inútil paisagem dos corpos lassos do casal, finalmente integrados à paralisia da Natureza: comatosos, pétreos, calcinados enfim pelo tempo; o tempo, que os transforma em leitos de sua cíclica, incansável tarefa de sedimentação. No final de Eternamente sua, assim como na paisagem envenenada do começo de Tropical malady- soldados encontram um corpo semidevorado na pradaria- ,o Éden espectral de Apichatpong: um corpo crispado, soturno e tutelar, onde as ninfas do Silêncio e da Morte velam por nosso sono.
... mas voltando ao plano.. seria este, num sentido totalmente outro dlo designado por Serge Daney- ma non troppo- o plano túmulo de Apichatpong?, uma clareira onde o tempo cristaliza os corpos - mumifica-os, ia escrever; não escrevo!- , os sevicia, os hiberna, assim como - num sentido quase que totalmente outro, repito- o plano de Toute révolution est un coup des dés( Straubs) preserva a utopia dos Communards, enfim redimidos por um monumento - monumento fúnebre, embora-que sacraliza sua inglória luta?
Mas o tempo de Apichatapong não me parece utópico, muito menos distópico; paira sobre um neolítico elegíaco, pré-histórico, pré-utópico. Tópico?, como parece sugerir a carnalidade de seus planos médios e raros closes, concentrações e descontrações dos corpos- corpos parciais sempre, pois mesmo quando enquadrados em planos gerais, são vistos como partes desta membrama maior, o opaco, monótono e regular corpo da Natureza-, desfibrados sob a enxurrada alcalina do tempo, este ceifeiro, como diria o outro.
sábado, 31 de outubro de 2009
Dos materiais

terça-feira, 27 de outubro de 2009
O cântico das criaturas

Em Rossellini, o franciscanismo redivivo: vinhetas, humor rústico e sensual, peregrinações do gesto monacal pela abóbada telúrica do Ser; no belo O cântico das criaturas, de Miguel Gomes, canto, encenação frontal e uma atenção igualmente lúdica ao gesto nos mostram uma versão um tanto diferente do espírito franciscano; uma abertura feérica ao mundo, onde as formas do visível são entrevistas segundo ângulos inusitados: o chiaroescuro que plana sobre o encarnado do Amor, olhos de bichos recortados pelo manto da noite, uma voz de criança dublando um lobo, afrescos em ocre e violáceo, debruados pelo ritmo hipnótico do apelo de Clara, no lusco-fusco entre o sono e a vigília: Irmão Francisco, não se lembra? Se em Rossellini, ser franciscano é cruzar o átrio da percepção em direção a um mergulho nas coisas- um acumpliciamento nupcial com estas-, em Miguel Gomes seguimos o caminho oposto: somos conduzidos das coisas, com suas convencionais figuras e conexões causais, em direção ao luxuriante nicho da percepção, cadinho alquímico onde o mundo acede à transfiguração. Os místicos espanhóis- São João da Cruz, sobretudo- chamaram de “Noite escura da alma” o necessário despojamento que o espírito humano deve empreender para ser tocado pela graça divina: apenas nesta arena de pó e trevas o espírito de Deus soprará. Em O cântico das criaturas, temos o silêncio, a treva e o arpejo do canto, cúmplices do Nada, cúmplices de Deus. Mas embalsamados por um adágio de artifício e voluptuosidade - suas texturas à la Tintoreto, a alternância entre encenação e uso das locações, nas duas partes do filme, a concentração mercurial na saturação das cores- que em nada ficam a dever às mais faustosas experiências pagãs.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
O sangue: plano e contraplano
Revendo O sangue, nesta bela cópia do Artificial Eye. Plano e contraplano
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Três planos de La vie comme ça.



Curto e grosso: La vie est comme ça, Brisseau. Plano 1 distanciado, neutro? Definitivamente, não. Monsieur Duclerc, simpático concierge , nos conquistara uma seqüência antes , ao convidar Agnes ( Lisa Heredia) e Marie Dubois, locatárias do prédio que ele administra com mão solícita e ternura feminil, para jantar. Adorável velhinho. Portanto, nem Brisseau, naturalista avant la lettre e moralista avant tout, tinha o direito de deixá-lo entregue à sua sorte, de se livrar dele. É um plano subjetivo ( que vai se revelar subjetivo ao menos, quando Agnes entrar no campo): é ela quem, escondida atrás da porta armada de um bastão, se livra dos agressores ( ao que me lembre, não há corte) com uma paulada certeira.
Suspiramos, aliviados. Aliviados? Sigamos. Ao final do filme, (perdoem-me por contá-lo, mas isso importa a alguém? Se a alguém, a quem?), o preço a pagar: Lisa se mata. Brisseau a mata (ela se suicida); na intercalação de um plano geral com um close de seu corpo ensangüentado que nos fazem assistir à comunhão de Hitchcock com Fulci, uma brusca noção de substituição se opera: Brisseau poupara ao velhinho àquela altura do filme , uma vez que o percurso de Lisa ainda iria se efetivar- de sujeito político a objeto erótico e massa de manobra. Nós seríamos suas testemunhas, asism como testemunhas do iminente assassinato de Leclerc. Nós estávamos lá(na figura de Lisa, plano subjetivo, ok?), para velar pelo Leclerc e pela integridade de Lisa, que o filme/ a vida ( moralista, naturalista?) se encarregaria de destruir.
Ele sacrifica Lisa no lugar do velho, ao final de seu percurso de desencanto, ao final do filme, porque já não estávamos lá ( não precisava mais de nós?). O que o plano não filma ( ou filma de forma equívoca) vale tanto quanto o que nele se representa: um plano subjetivo como o acima (valorativo: o que penso da cena) fazendo-se passar por neutro, amoral, não-valorativo. É esta troca o que define um plano, entre o expresso e o subentendido, ou entendido apenas anterior/posteriormente, cedo demais, tarde demais, ao longo do filme; ele contém o desenrolar do filme, ou o filme como desenrolar (geralmente, desenrolar de uma consciência, até voltar para si, no bom percurso do auto-desvelamento hegeliano. Ou até se perder/ser tragado definitiva e tragicamente pela inescrutável treva do Outro, que é o que acontece aqui). Mas há outra troca em jogo, ou substituição- também a ser desvelada ao longo do filme, ou da trajetória narrada por ele-, noção que todo rito sacrificial sempre conheceu: nós por ele, ele por nós. Ele em nosso lugar, Lisa em nosso lugar ( plano subjetivo versus plano documental, acima do que filma), Lisa sacrificada no lugar de Leclerc. É o caminho escolhido por Brisseau. Ficamos na mão: o rosto de Lisa Heredia, arredondado e melífluo como o de uma Virgem italiana, já a não a pode salvar, já não conta conosco ali para salvá-la, rogar por ela, como ela rogara por nós ( por Monsieur Leclerc, ao menos): la vie comme ça.
PS ( para mim): Hitchcock= transferência de culpa ( de algozes, entre). Brisseau: transferência de inocência ( entre bodes expiatórios).
domingo, 4 de outubro de 2009

Francamente, nunca parei pra ouvir Sosa como cantora, mas ela é uma voz da infância, ,e isto basta para eternizá-la. Como a da minha mãe, de algumas vizinhas tb, mulheres sobretudo, essas tecedoras de tempo, de lugares-comuns e de horror vacui. Em momentos mais ou menos decisivos como julgo estar vivendo agora, a infância ( o passado) cala mais fundo, pois é nele que se acumula,imperceptível e surdamente, o futuro, não no presente. Percebemos a iniqüidade do presente: ele passa. O passado e o futuro- nossos promontórios, nosssas Cila e Caribde- não. Eles nos acenam com algo de Eterno, imutável ao menos ( não é a mesma coisa, definitivamente): o aconchego da casa, o afago do túmulo. Eu uso muito essa palavra por aqui ,e vou usar de novo, porque ela resume para mim o sentido da vida humana, assim como to play/jouer ( não há equivalente em português) é o verbo que resume para mim o sentido da arte: encruzilhada. E na esquina destes tempos entrecruzados- deste passado mais que nunca presente, destas iminências de futuro que se descortinam e me sufocam, de tão amplas e claras e ensolaradas
( agarofobia, chama, horror de lugares abertos): uma voz. Enfim: estou muito sentimental, o Brasil é sentimental, choremos por todos. Mas La Negra nunca foi exatamente um reservatório de sentimentalismo; pelo contrário: era uma trágica latina, e só Deus sabe o quanto o trágico está distante do sentimentalismo. Não somos muito dados a trágicas, somos bulímicos, passivos, "cordiais" no pior e no melhor, passageiros, levianos, fúteis, vorazes, laicos, não conhecemos porra nenhuma do sagrado: a Mercedes Sosa cabe a mácula de ter conspurcado o sagrado, que sua voz invocava, com o credo político, o pathos de opereta, embora num momento fundamental, que autorizava a tudo. Mas isso também passa,como tudo. É menor, como tudo: fiquemos com a Voz, e com a infância que nela se encolhe- se esconde-, à espreita de tempos outros.
sábado, 3 de outubro de 2009
... Pois agora me deitarei no pó. Tu me buscarás, porém eu não serei mais...

"La maison est noire, de Fourough Farrokhazad, dont Chris Marker a dit qu’il était le Terre sans pain du cinéma iranien. Je me dis que le cinéma d’aujourd’hui manque de puissance d’invocation ( ce coté Lamentations de Jérémie, Livre de Job). Sauf chez Mann, Gray, Malick. Même s’il n’y a plus rien à invoquer, le geste de le faire, aussi vain et desespere soit-il, nous ouvre le seul espace dans lequel nous pouvons encore tenir debout."
O beijo amargo 3

Ato 3: Cerimônia fúnebre
Dar o passo atrás equivale a um des-velamento da ficção, ou da receita que é preciso seguir para se transformar um documento, um fato bruto e um corpo nu em ficção, receita alquímica que equivale à metamorfose da pulsão no significado e da experiência na alegoria: a partir de que ponto do filme Kelly passa a ser uma personagem, e justamente a personagem (antagonista?) de uma fábula moralista, de um percurso pedagógico perverso, destinado à desilusão e ao desmascaramento, ao contrário dos Bildungsroman clássicos, que levam à fixação de uma máscara definitiva, à integração do indivíduo na cadeia das convenções sociais/culturais, um acolhimento do sujeito pela comunidade, mesmo que uma comunidade alternativa de artistas, como no final do Wilhelm Meister?
No plano dos créditos iniciais vemos como Kelly/Towers acede ao pacto da ficção, como ela se esmera em desempenhar bem o seu papel, embora não conheça as rubricas, embora as rubricas lhe sejam interditadas (mais adiante, antes de visitar sua futura senhoria, ela examina a máscara ainda uma vez diante do espelho, confirmando-se no papel. A senhoria, por sua vez, como boa coadjuvante, assina embaixo no contrato da verossimilhança: “Esta face no espelho é sua referência, Sra. Kelly”). É ali que ela se torna personagem, e nós espectadores. O prólogo - que tanto nos excita e tão pouco nos diz sobre este filme crepuscular - tem de ser esquecido, o prólogo só conta ao final do percurso, assim como a Morte só conta quando cicatrizada na Palavra. A cidade é o palco (a Via Crucis) de sua encenação íntima (esquizo ou ambidestra), na verdade, pública na medida em que sua, sua à medida em que pública: tornar-se uma pessoa pública equivale a cunhar uma efígie idólatra de si, a virar um fantasma e ao mesmo tempo fundir-se aos fantasmas coletivos, a ser tragada por eles). Mas se o filme – “o filme de ficção” chamado O Beijo Amargo - começa ali, no camarim da heroína, que está acabando de se arrumar... Se o classicismo se encerra ali, no começo do filme que está acabando de se arrumar... O fim de O Beijo Amargo, filme de Samuel Fuller, está na cena da descoberta do pedófilo: é aí que percebemos o blefe, a farsa, é ali que nos damos conta de que todos estavam encenando, ou blefando, de que a primeira parte de O Beijo Amargo (que vai dos créditos até o assassinato do marido) não era um filme de Samuel Fuller, mas um cromo destinado a ser o féretro do classicismo, o seu enterro derrisório, o seu penúltimo suspiro (o último não é um suspiro, mas uma cusparada, como em todo típico Fuller: as tamancadas na câmera do primeiro plano).
Antes desta revelação, porém, uma piscadela, o preâmbulo do que virá a seguir: na cena da canção com as crianças - em que o som nos parece a princípio não diegético, sua fonte invisível na cena -, a ciranda de closes nas crianças é interrompida pelo plano médio de uma menina, que observa fascinada o aparelho de som, finalmente mostrado para o espectador! Sinuosa e cúmplice, a câmera parece repousar sob o mesmo estado sonambúlico que envolve a criança, hipnotizada pela música e pelo enlevo da despedida de Kelly, que vai abandonar o hospital para se casar. Vemos uma mão pousada sobre o aparelho, concentrado e entrefechado centro de força, tamborilando sobre o cassete, seduzindo a criança, assim como fôramos seduzidos e fascinados, ao longo do filme, pelo ilusionismo fetichista das imagens projetadas de Veneza, pelo uso da música, pela gentileza e suavidade dos habitantes da cidade... A câmera se eleva para a esquerda, e o personagem que vemos é o marido de Ketty. É ele o demiurgo da cena (em grego, demiourgos não é o criador do mundo, mas o seu artífice, o que lhe confere uma forma: o encenador), o seu manipulador, seu prestidigitador, o senhor e o deus da cena, tanto quanto Fuller é o demiurgo do filme, o demiurgo que não ousa dizer o nome, certamente, pelo menos até... ( afinal, até que digam o contrário, tratava-se até ali de uma obra clássica, olhar auto-transparente e reconciliado sobre o mundo, sem Outro, sem máscaras, sem arte). Mas o aparelho de som pertence ao homem - assim como lhe pertence a encenação “não diegética”, não encenada que ele proporcionara -, vamos encontrá-lo novamente, assim como a menina, na casa do pedófilo. Ambos os “objetos” – a menina, o som - pertencem ao personagem, assim como os planos subjetivos que figuram Constance Towers como uma máquina de satisfação libidinal ambulante pertencem aos homens que a desejam. Fuller ou a mística da possessão no capitalismo tardio?
Nesta curta e decisiva passagem, percebemos o truque de que fôramos vítimas, presas do escrínio de fascinação construído por Fuller, assim como a criança fora presa deste signo de força pousado sobre o aparelho de som. Se estivermos vendo O Beijo Amargo em dvd, devemos nos obrigar, a partir deste ponto, a revisitar certas cenas chaves: a projeção das imagens de Veneza, a chegada de Kelly à cidade, o encontro com a cafetina, os flertes e acertos de contas com o policial, e a redescobrir e desvendar um filme cuja verdade se escamoteia nos interstícios - enfim, o fora de campo! -, na espreita irônica e desencantada que assinala o classicismo como uma experiência de destroços, de caduquice e engodo, de signos dispersos e arruinados que já não mais encontram um lugar (um sentido) na percepção e na obra, que já não tem como corresponder a um mundo: fim do campo como realidade total e única, fim de jogo, hora de recolher as cartadas, os truques e os tropos, e partir, como bem nos mostra Fuller no plano final...
É claro que, como todo fantasma, o classicismo deixa rastros, e no caso belas pegadas, pegadas de elegista e de perverso, daquele que cumpre luto e daquele que goza sempre après coup (ok, vamos falar como Freud: Nachträglichkeit), tarde demais, tarde demais: depois que o sujeito se dá conta de que é um fantoche, ora de mecanismos fatalistas, ora de projeções fetichistas da audiência, depois que o classicismo se dá conta de que existe, enfim, o fora de campo, de que sua estética não pode consumir/consumar o mundo, sem mais (existe o Outro, existe a Morte, etc, o que me implode e naufraga, assim como ao plano): Constance Towers “dublando” no hospital com as crianças a canção da reconciliação impossível, o embalo de uma polução clitoridiana ao som de Beethoven, e sobretudo este plano geral da despedida da cidade, este horizonte de fim de festa onde finalmente se inscreve, ao fim de um percurso de corrupção e desencanto, uma espécie de boa-nova: a reconquista dos grandes espaços, do deserto, a desterritorialização, direito defendido pelos personagens de Fuller até o paroxismo e a destruição, tenaz vindicação da Trieb que brilha no prólogo e no clímax em O Beijo Amargo, através/apesar dos biombos da domesticidade e da castração. O Evangelho de Fuller não é o de Paulo, a consolação do pastor e do congregador, mas o extravio do profeta, ovelha negra foragida; no primeiro, o hábil desvio da força em direção à obra, sua rarefação e sublimação; em Fuller, a implosão da obra pela força, a animosa e ensandecida retomada do pathos da Diferença, soterrado sob o determinismo (O Cão Branco), os labirintos da filiação (Underworld USA, Forty Guns), os revezes da História (Big Red One, Run of the Arrow, Verboten!), as estratégias da sobrevivência (Pickup on South Street, The Steel Helmet) ou o mito fundador (Run of the Arrow, I Shot Jesse James; uma superexposição do presente e uma revitalização nitroglicerínica do signo que só encontrou equivalência nos grandes místicos e pecadores, de Santa Tereza D’Ávila a Gilles de Rais, de São João da Cruz a Jean Genet e Céline, a demoníaca grandeza de quem assume os riscos de uma experiência dos limites.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
O beijo amargo 2

Ato 2: O Minotauro em seu labirinto.
O que Fuller, homem do presente fremente e turbulento, do Verbo feito Combustão, não perdoa são as boas intenções, aliadas da má-consciência: para Fuller ( e para Nietzsche),isto equivale a um mau uso do passado, visado como reduto do ressentimento, do passado credor e devedor. Fuller é o anti-classicista, quase por princípio: detesta o Era uma vez, a reconciliação, o encanto com as origens, a não ser que esta se traduza numa atualização/desvirtuação perversa, num tornar-se ato, novo ato fundador : O traidor e amante Bob Ford mata o mito Jesse James, O’Meara quase mata o Confederado, símbolo da América nortista, em Run of the arrow, Skip enterra Moe, e morre com Moe o romântico mundo da marginália, ao qual Skip não mais poderá retornar, pois seu compromisso com duas formas de poder, os espiões e a polícia, já o puseram a meio caminho, ora de um fim sórdido, ora da reintegração mundana, casado e castrado em sua potência de rapina, ao final de Pick up on South Street; o filho resolve vingar o pai morto, e para isto precisa matá-lo uma segunda e definitiva vez: tomar-lhe o lugar, encarnar o fantasma, e assim dissipar-lhe a memória, ao atualizá-lo, em Underworld USA. Ao que me lembre, apenas em um filme esta regra é quebrada: em Forty guns, o “filho” degenerado é corrigido/assassinado pelo pai simbólico, que ainda leva de bônus uma esposa que não pedira; em geral, “um filho” toma o lugar do pai e se torna o marco de uma vida e um mundo novos, a pedra sacrificial; a saga da diferença de que fala Lourcelles, diferença-usina de produção de ficções, os mundos substitutos para a Ausência do Pai, assassinado, traído ou emboscado numa cena originária. Cada personagem de Fuller parece recitar o credo de Gide, expresso em seu Édipo: “Ouvindo a lição do passado, só de ontem esperava o meu assim o seja, o meu ditado. Depois, de repente, partiu-se o fio. Brotado do desconhecido; já sem passado, já sem modelo, nada em que me apoiar; tudo a criar- pátria, antepassados... a inventar e descobrir. Ninguém com quem me parecer a não ser eu mesmo”. Não por acaso, o último filme de Fuller, Cão Branco, termina com um tiro mortal no inimigo por excelência da diferença: o determinismo.
A partir do momento em que Kelly lamenta seu passado, em que se arrepende e quer se redimir, ela está condenada a virar joguete do Mal, a dar continuidade ao circuito do ressentimento, e portanto de permanecer do lado do Pai e da Lei, de não traçar a trajetória de uma diferença, para fora e para além dos tentáculos do melodrama. O filme joga com este princípio a partir de dois movimentos sincrônicos:primeiro vemos a Kelly tigresa da abertura, que não se comporta como se pedisse desculpas ao mundo, virando uma heroína sulfurosa e enquadrada, etc. Depois, o inverso: a cumplicidade com o moralismo, a submissão ao joguinho sado-masoquista, vítima e culpado, vice-versa. Ao assassinar o marido, ela retoma o controle da situação, mas eis que a cidade intervém, tomando o lugar do marido, e a vitimiza/culpabiliza novamente. A chave para se entender esta oscilação perversa entre partners- entre cúmplices e carrascos de um mesmo jogo-, típica do sadomasoquismo, da ópera e da estética pulp, está no melodrama ( musica e drama), gênero démodé a que O beijo amargo pertence sem pleno direito. Fuller ou a pedagogia do agônico:“ Só o sadismo pode dar à estética do melodrama um fundamento na vida “( Proust).
Como bem entendeu Wagner, com seu conceito de arte total, não há pulsão ( não há ser, digamos tudo) sem expressão. Tudo é na medida em que se exprime ( ex-primir, ek-sistir), e isto antes de Berkeley e para além de Berkeley. Tudo o que aspira a ser- do mais baixo ao sublime, do cuspe ao Stabat Mater de Pergolesi - precisa ser expresso, traduzido em signo. Apoteose do expressionismo: O melodrama é este gênero onde tudo, dos detalhes mais sórdidos da comédia humana aos mais excelsos, ou supostamente tidos como tais, acede à glorificação na expressão, e geralmente sem o concurso/aura da alegoria. E acede cantando, engalanado e exaltante!, um Te Deum pela faculdade, unicamente reservada ao homem, de mostrar, falar e celebrar. A totalidade entendida por Wagner é a totalidade do que pode ser expresso; sentimentos excessivamente sutis, pouco “encarnáveis” ou materializáveis ou figuráveis, são deixados de fora. A grandiloqüência wagneriana é a forma de sublimar a baixeza, assim como se diz naquela piada jesuítica que quanto mais gritamos, mais os argumentos são fracos: Wagner não capta/ figura nenhum sentimento que não possa ser figurado, que não possa ser estilizado em musica e drama. Wagner jamais foi um impressionista, a mística do chiaroescuro e correspondências não são o seu forte. O melodrama é a lixeira do id, assim como do estilo: a tudo absorve e reflete, do incesto e pedofilia ao epigrama, do andante sostenuto à zoofilia ( Cão branco).
E Fuller, o que faz? Como disse Daney, sua tendência é tudo transformar em ficção, em imagem de (boa parte do gênio americano consiste nisso, aliás). Ou seja: levar tudo à expressão. Wagner contentou-se em elevar à expressão o que pode ser expresso ( oposições elementares e rasas, que nada dizem sobre os Tortuosos Abismos do Wille Zum Leben: Bem e Mal, Herói e Deuses, Virgem e Bacante). Fuller, como bom demagogo e sensacionalista ( o que Wagner também era, mas tinha menos recursos técnicos à sua disposição, menos auditório e extensão expressiva ; falando francamente: não tinha o cinema, como Fuller e Hitler), quer exprimir -tornar ficção, tornar espetáculo, gesto, figura, ação- inclusive o inexprimível, o infigurável. E o que é o inexprimível em O beijo amargo, assim como em toda obra de arte? Em toda obra, aliás, sobretudo classicista ( sim, pois é o classicismo que se expia aqui), a ferida que o classicismo sempre se esmerou em apagar? A la Morte, Sorella Moda, la signora di tutti. (Leopardi).
Sim, O beijo amargo é um filme sordidamente decadentista. Nem Visconti em Ludwig foi tão baixo e rasteiro, nem Soldati em Piccolo mondo antico ( talvez apenas outro tenha ido tão fundo na baixeza, e de forma tão obscena quanto: Rossen, com Lilith). Só um plebeu como Fuller para nos jogar na cara a pocilga do ocaso! Mas é decadentista de uma forma singular, ou num diâmetro singular: retrospectivamente decadentista, por refração. É um filme que passa a ser decadentista a partir de certo ponto, do ponto em que descobrimos a ruína da carne au vif: a cena ( cena primária invertida?) da descoberta do pedófilo. Precisamos rever o filme a partir daí, precisamos nos lambuzar com seu perfume de danação, reverter nossos códigos e transliterar seus espectros, dar o passo atrás, o passo em direção à origem - que só tem sentido se retomada após o ato final, a perda da Casa e do Pai, a liquidação da herança e conseqüente promulgação da subjetividade ou da conquista dos espaços vastos e ominosos, do deserto e do labirinto, Run of the arrow e Pick up on South Street, a conquista da Ficção, empreitada fulleriana por excelência; esta foi uma lição aprendida por Fuller, judeu e nixoniano, os Fords crepusculares, os Nicholas Ray juvenis e os alcoólatras, como Bitter victory, por Robert Kramer e todo bárbaro civilizado que se preze; e avacalhada por Brooks, Zinnemann, Peckinpah e todo bárbaro recalcado que se preze.
A seguir...
O beijo amargo: as pompas fúnebres do classicismo

“Au reste, que m’importe d’òu je viens? Moi, si cela avait pu dépendre ma volonté, j’aurais voulu être plutôt le fils de la femelle du requin, dont la faim est amie des tempêtes, et du tigre, à la cruauté reconnue: je ne serait pas si méchant. Vouz, qui me regardez, éloignez-vous de moi, car mon haleine exhale um souffle empoisonné. (...) il ne fault pas que les yeux soient témoins de la laideur que l’Être suprême, avec um sourire de haine puissante, a mise sur moi”.
Les chants de Maldoror, Lautréamont, Canto Primeiro.
"A casa, meus amigos, a casa!
Quem de nós jamais saberá desatar o enigmático nó de pedra?"
Alberto Savinio.
"Sometimes a conflict emerges between the desire for the image and the desire for the story which is, after all, in psychoanalytic terms, normal, since the first one expresses, beyond the codes of modernism, a specular fascination for the body (of the Mother), and the second, the return of the repressed narrative, and consequently the necessity to pay one’s debt to the Father."
—Bérénice Reynaud
Ato um: Ficções Literais.
A seqüência de abertura de O beijo amargo, que mostra Constance Towers engalfinhando-se com a câmera num plano que vai se revelar como subjetivo ( ela espanca o cafetão), mostra bem onde estamos: num ringue; num filme de Samuel Fuller. Mas o que se segue a esta entrada triunfal parece contradizer a fórmula esperada. Durante os créditos, um plano frontal de Towers, supostamente diante do espelho, nos mostra sua personagem se arrumando para entrar em cena, para representar um novo papel em uma nova vida, possivelmente num filme que mistura Peyton place com Roman spring of. Mrs. Stone ( pois Fuller só se interessa pelo pulp, a matéria espúria do visível, artefato anti-classicista por excelência, aquilo que pode sofrer um transbordamento ou gerar uma fulminação, jamais ser passado em branco ou integrado). A primeira parte de Beijo amargo, com seu ritmo compassado, regado a Ao luar e diálogos vaporosos, seus cromos à la Norman Rockwell, suas crianças aleijadas e canções miraculosas, é um andante hipnótico e feérico, onde a selva com a qual Fuller sempre identificou a América- uma teia eletrostática e labiríntica de choques histéricos e esbarrões sinérgicos-, se transforma num Éden grisâtre, espectral, não muito distante dos cartões-postais outonais, estriados de má-consciência, filmados por Delmer Daves em A summer place.
Mas há uma forma de filmar Constance Towers que assinala o veneno deste idílio: quando ela chega na cidadezinha, o que vemos de Kely é um close de suas pernas: ponto de vista de Griff, que a toma como amante; apresentada ao futuro marido, Grant, um insistente plano contraplano nos adverte que o que Grant deseja é este rosto-máscara, que Fuller filma com o halo ilusionista reservado aos closes dos vasos de Sévres eróticos dos anos 30, Garbo e Dietrich, um rosto sob a fachada do qual ele vai continuar, impunemente, a exercer sua tara. Kelly é isso: uma boneca de carne decomposta pelo desejo masculino em uma seqüência de objetos parciais/closes; A princípio, uma presa erótica, filigrana do recalque; na segunda parte, o marido vai usar a ex-prostituta, que serve a todos e a tudo, indiferenciadamente, como uma moeda de troca ( Nós somos iguais!) em uma engrenagem de hipocrisia e perversão, garantida pelo casamento: assim como nas peças de Genet, o rito da respeitabilidade é o duplo metafórico da abjeção, o que lhe dá alcance e projeção simbólica. Inversamente, a abjeção é o pathos secreto do ritual, a chama pulsional de sua vitalidade.
Mas Fuller, como bom primitivo, confunde sempre a palavra com a coisa, as pulsões com suas metáforas, o circuito imaginário e o material; ele literaliza tudo, todas as metáforas se tornam concretas, pulsam e sangram na tela. Assim, o tema do duplo em Casa de bambu se atualiza num carrossel de alternâncias de posição no cadre e de arquétipos na intriga, além de uma dualidade estilística: o filme noir , reduto do close, recurso estilístico tão apreciado por Fuller, é aqui filmado em cores, à distância, em longos planos seqüências ; um filme dentro do filme, cercado e vigiado por este, um olhar documental dirigido a um gênero eminente e explosivamente ficcional, a caça de gato e rato. Em Forty guns, o dualismo entre la béte et l’ange, como bem disse Moullet, é materializado em arroubos de violência advindos ora da cultura ( Forty guns é um de seus filmes mais sombrios, com suas ritualísticas encenações de assassinatos, verdadeiros tableaux elizabetanos caipiras) ora da Natureza, como na bela seqüência do redemoinho, expressão cósmica do amour fou de Bárbara Stanwick , não apenas pelo seu homem mas sobretudo pelo poder exercido sobre 40 belos garanhões e por uma terra sem lei. Em Shock corridor, as crises de esquizofrenia hebefrênica dos personagens, internos em um hospício, são emuladas pelos éclairs de uma montagem estridentemente expressionista ( América is mad!), além do uso recorrente de planos subjetivos dos pacientes. A própria intriga do filme ilustra esta necessidade de materialização – de espetacularização?- de tudo que está na arte de Fuller: um jornalista, para falar da loucura, precisa tornar-se louco- tornar-se o objeto de sua tese-, e nesta empreitada ultrapassa os limites cognitivos do sujeito e do objeto, da teoria e da experiência, e acaba por se queimar na aventura. A arte de Fuller reside nesta constante ultrapassagem, não apenas da metáfora em direção à matéria e à ação que a incandesce, como de tudo o mais: ultrapassagem dos roteiros medíocres e com freqüência confusos em diamantes de tensão centrífuga, do plano isolado pelo espasmo de violência que o estilhaça e expande em direção a perímetros mais amplos e vigorosos de força.
Fuller não apenas literaliza tudo mas, como bem disse Daney em seu texto sobre Big red one, ficcionaliza tudo, através da intensificação das sensações em detrimento da inanidade da linguagem de seus personagens. Através do uso terrorista de seu contraplano- o contraplano em Fuller fulmina: ele introduz a força como o núcleo desestabilizador e rizomático da cena, a bomba que vai propulsioná-la até seus limites, até o limiar da desintegração -, as palavras e os gestos funcionam como armas, que imantam a sequência com o fulgor de uma retórica incendiária, os palavrões da cadeia sintagmática: os tapas dados pelo apaixonado Widmark em Jean Simmons em Pick up, os violentos arrancos e investidas de Robert Ryan sobre suas vítimas em Casa de bambu, as reações dos alucinados em Shock Corridor; em O beijo amargo, temos esta découpage genial, que tenta emular o caráter taquigráfico e estertórico de uma manchete de capa do National Enquirer, na cena da “descoberta” de Towers de que o marido é um pedófilo: em três closes e um plano médio, o mundo Biblioteque Rose da primeira parte do filme desaba, e ficamos com o palco vazio, coberto de cacos. Apocalipse en migneur, versão doméstica deste fascínio pelo desastre e pela Queda que assombra o imaginário do cinema americano, de Intolerância ao decadentismo do filme noir, de Soberba a O Exército do extermínio. América ou os novos Arianos: “A idéia de uma catástrofe- quero dizer, uma catástrofe de verdade-, para os alemães, é tão arrebatadora quanto o era outrora a Revolução para os franceses” ( Paul Claudel). A seguir...
Ferreri, o escriturário

Ferreri filma como Kafka escreve: como se não tivesse ( não existisse) nada a enfatizar , a sublinhar: de uma transparência na imanência, de uma imanência na transparência que suspende todo acesso à significação. Ficamos com portraits vagos e idiossincráticos ( Mastroianni
Bitransitivos e putativos, destroços, dejetos da Arca de Noé do capital moribundo, anti-funcionais, naturezas-mortas teleguiadas: o apito e o museu fetiche
Temos, porém, a figura da utopia em Ferreri, representada na imagem do mar, presente em todos os filmes. Pero, uma inflexão, ou perversão: Do estibordo, vislumbramos uma distopia cerrada, um marasmo de suicida que escapou por pouco, que por um instante resiste ainda; a utopia é um istmo no oceano da distopia, é esta margem de tempo inteiriçado e fantasista, o tempo do filme, à qual o náufrago se agarra, antes de sucumbir definitivamente aos fantasmas coletivos ( não há fantasmagoria privada em Ferreri, todo drama individual ecoa uma oposição anterior e superior: Macho ou fêmea, Civilização e Barbárie, Humano Inumano, a grande prova de força dos valores, o ponto limítrofe de que falei mais acima, afasia ou demagogia, apocalipse ou contrato social, não há meio-termo). O instante de resistência, o instante que dura o filme: esta colméia de devaneios, faux raccords niilistas, perambulações ao ocaso/acaso, e claro, as aporias do corpo mecânico, do autômato genital, que nas horas menos previsíveis percute golpes violentos, desarticulados, gritos, socos, ejaculações, fibromas da carne recalcada do homme trop civilizée, este estigma do rabino que leu Céline, Courtelin e Freud, que sabe que julgar/valorar é operação de risco, que não há documento de cultura que não esteja sobrescrito por um hieróglifo de barbárie.
A obra de Ferreri é a de um ironista, disse isto em outro texto, arremato com isto hoje, arrematarei: a obra de um ironista que flerta com a decadência mas paga a conta - nada de saldo devedor, culpa, má-consciência, sentimentalismo: o sacrifício é pedra batismal da cultura, não da redenção. E, seco ( ressecado, eu diria), segue sob o sol.


















